sábado, 9 de maio de 2009

Um ano sem Artur da Távola


José Serra recorda o amigo Paulo Alberto

Um relato do Márcio Fortes, há pouco mais de um ano, em São Paulo, me deixou apreensivo: "Visitei o Artur da Távola no fim de semana. Ótima conversa. Mas ele está muito frágil, não vai bem. A Miriam pediu para te dizer que não deixe de ir vê-lo logo." Planejei visitar o Paulo Alberto (Artur da Távola era o seu pseudônimo como jornalista e escritor, que ele adotou na época da ditadura) na semana seguinte. Mas a preocupação não me saiu da cabeça.

Dias depois, em viagem pelo interior de São Paulo, um assessor se aproximou com ar de más notícias. Num átimo, pressenti do que se tratava. A partir daí, e até agora, as lembranças misturam tempo, cenários e conversas passadas.

A última vez que estive com ele, no hospital, com sua inteligência e bom humor em dia, ao lado do sofrimento físico. Em 1963, no Rio de Janeiro, em alguma reunião onde o conheci, adversário do Lacerda, expressando-se com clareza, engraçado e boa-pinta.

No início dos anos noventa, numa salinha da liderança do PSDB na Câmara, depois da sessão do dia, somente os dois, disputando quem conhecia mais as letras de músicas do Orlando Silva.

O Zé Kéti visitando o Paulo na Embaixada da Bolívia, cantando "Diz que eu fui por aí", uma composição que não fora ainda lançada.

Em La Paz, no começo do exílio, pleno inverno, a uns 4 mil metros de altura, compartilhando com ele o quarto do hotel. Em Santiago do Chile, na sala da sua casa, ouvindo o professor Anísio Teixeira, seu sogro, um dos maiores educadores que já tivemos, contando como estava o Brasil. No apartamento do senador José Richa, em 1988, planejando a fundação do PSDB.

Vendo-o na TV Senado e ouvindo-o na Rádio Cultura de São Paulo, explicando, analisando e apresentando música clássica.

Quando estudante de Direito, Paulo foi diretor de um jornal da União Metropolitana dos Estudantes, "O Metropolitano", que circulava como encarte dominical do "Diário de Notícias" - e, sem exagero, precursor de um estilo novo na imprensa brasileira ao longo dos anos 60.

Em 1963 já era deputado e líder do PTB na Assembléia Legislativa da Guanabara.
Esse foi um ano difícil - inflação alta, inquietação militar, greves, agitação estudantil, governo hesitante - e longo: acabou, de fato, em primeiro de abril de 1964, quando o presidente Goulart foi deposto.

No exílio, Paulo instalou-se com sua família no Chile, onde fez programas de rádio e de TV, com grande sucesso. Lá nasceram dois dos seus três filhos.

Retornou ao Brasil antes do AI-5, assumindo o jornalismo como atividade principal.
Já no final dos anos 70, depois da anistia, retomou a atividade política. Foi eleito deputado federal em 1986 e reeleito em 1990.

Deu grandes contribuições à nova Constituição, principalmente em relação à comunicação, à liberdade de opinião e de informação.

Elegeu-se senador em 1994, vindo a ser, para mim, o melhor orador da legislatura, com improvisos que poderiam ser transcritos como textos irretocáveis: entonação agradável, idéias boas, por vezes expostas com veemência, mas sem nenhuma ira, mesmo em relação aos adversários.

Por essência, era um homem sem rancores. E um magnífico analista de pessoas e de seu comportamento, sem qualquer mordacidade.

Lembro-me que o Marcello Cerqueira, seu amigo fraterno, nos idos dos anos 60, dizia, divertido: "Paulinho, você é a figura síntese do IV Centenário da cidade." Já o Samuel Wainer me disse, logo no começo do exílio, que achava o Paulo Alberto o político mais promissor da nova geração, e que ele chegaria a presidente da República.

Quando nos conhecemos, eu tinha 21 anos, e passei a tratá-lo como uma espécie de irmão mais velho, não pela diferença de idade, mas de sabedoria. Isto se manteve por todas estas décadas.

Talvez ninguém na vida pública tenha me conhecido tão bem, nos gestos e detalhes e, ao mesmo tempo, me aceitado tão bem.

Por isso mesmo, suas reflexões e opiniões a respeito de rumos que eu deveria tomar em cada fase de minha trajetória, ou como reagir em determinadas situações, sempre foram lúcidas e objetivas, em geral acertadas!

É evidente que a previsão do Samuel exigia uma combinação, digamos assim, de destino e circunstâncias.

Mas o Paulo teve outro problema: em relação à média da política brasileira, ele era equilibrado demais, tinha paciência de menos para cultivar bases eleitorais, avesso a factóides, e tinha, digamos, excessiva boa-fé nas pessoas - na verdade, como dizia o Marcello, ele tinha a visão do outro, reconhecia the otherness of the others, uma expressão de Albert Hirschman, que não sei agora como traduzir.

Num recente jantar com amigos próximos, ao lado da fraqueza física que preocupou a todos, mostrou imensa percepção e acuidade na análise do Brasil.

Como se recordasse o verso de Fernando Pessoa, que ele mesmo costumava citar: "Estou lúcido como se estivesse para morrer."

Artigo originalmente publicado pelo governador de São Paulo, José Serra, no Jornal O Globo em 12/05/2008

3 comentários:

  1. A pista de boliche e o gato-gordo
    Octavio Antonio
    - Katinguá – urgente. Alô, alô, adesistas, paraquedistas e bolsistas! Chegou o homem-bomba da facção Al- Jibeira! Promete bomba e segue a proa certa. Encarna Napoleão, que na briga escondia a mão e coçava a barriga. Na Tonga-da-milonga, tudo é foguetório. Mordem ponte e engolem presídio. Tá tudo dominado, noves fora sobra um. Grandes cabeças, melhores idéias: lombadas, títulos de cidadão, placas para ruas. Deus salve a Simpatia, o melhor do Brasil é o brasileiro. Silveira cadê você? “Naquela casa tá faltando ele e a saudade dele tá doendo em mim”. Volta Silveira, volta Silveira. Oba, oba, tá chegando aeroporto para extraterreste e multa para pedestre. Senhores, vocês sabem qual a diferença entre o Chico Xavier e o piloto comercial? Chico Xavier era sensitivo e, por isso fugiu da nuvem negra que pairava sobre o Katinguá. O piloto comercial também era sensitivo, visualizou a tempestade e não fugiu. Procurou o aeroporto internacional e encontrou pista de boliche.
    - Bixin, o tempo passou e a sensibilidade ficou mais aguda.
    - Seu Buya, é verdade. Enriqueceram a geléia contemporânea. Já não bastava o golpe do bilhete premiado, do boa-noite cinderela, agora surgiu mais um: o do gato-gordo Não exige muita astúcia para decifrá-lo. Simples, primário. É o drible nos tributos domésticos, tal qual a estratégia de se usar, sem pagar, água e luz fornecidas pelas redes de distribuição. O inadimplente passa o tempo todo pendurado no miado do bicho achando que nunca será denunciado. Mas, quando um vereador com “V maiúsculo” vai no cheiro o gato-gordo tá enrolado. Buya neles!!!
    - Bixin, vai procurar uma benzedeira que a coisa tá feia. Assaltos aumentando, denúncias pipocando, círculo fechando, máscara caindo.
    - Seu Buya, quem está em paz está com Deus.
    - Argumente. O mundo será diferente.

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  2. O cavalo de Tróia
    Octavio Antonio
    Katinguá – urgente – Alô, alô Dom Juan de Flagrante, Narciso de Besteirol, Casanova de Nocaute, chegou Buya, o homem-bomba, terror da facção Al-Jibeira. Promete bomba, ri da pinóia social e senta a buya.
    - Bixin, hoje não falarei de anjo que voa com faca nos dentes, de construtor de cidade imaginária, nem de vendedor de terrenos na lua. Não vou gastar vela com defunto ruim.
    - Buya, quando você fala assim, coisa boa não vem!
    - Bixin, hoje citarei o senador que é o maior colecionador de tampinhas de lata.
    - Saravá Buya, você parece um bruxo. De onde você tira essas coisas?
    - Bixin, leia, leia muito ao invés de ficar construindo castelos no ar.
    - Sim Buya, mas qual a relação entre a roda, a moda e a viola?
    - Bixin, está nos anais do Senado Federal. Ele, o maior colecionador de tampinhas de lata, existente no mundo, tentou impor censura à Internet, nas próximas eleições.
    - Buya, desculpe minha ignorância, mas como censurar mundo digital?
    - Pois é Bixin, você confessa seu desconhecimento, porém um senador que vive às custas do povo, que representa o Estado, não deveria falar tamanha abobrinha.
    - Buya, você entende disso?
    - Bixin, o suficiente para não deixar o difusor traseiro na reta, o mínimo para não puxar um cavalo de madeira para dentro da cidade de Tróia. As sumidades conseguem se superar a cada dia - a cada dia são piores. Vivem no mundo de hospital, deviam tomar remédio para sanidade mental. Trabalhar com TI – Tecnologia da Informação, desmascarar armação delituosa de crime digital impossível requer, antes de tudo, capacitação técnica específica. Em contrário, o uso garantido e universal do direito de espernear. Não é pouca coisa.
    - Buya, se a Internet é incontrolável, mande buya!
    - Bixin, Buya não veio pra fazer vítimas, Buya veio pra fazer história.
    - Argumente. O mundo será diferente.

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